[LIVRO] "CLARO ENIGMA", DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE



Claro enigma representa uma nova inflexão drummondiana: abandona-se a poesia engajada e de tendência socialista e passa-se a abordar temática de teor filosófico e existencialista. Essa alteração de rota, no entanto, não foi bem vista por setores da crítica, que a avaliaram como um retrocesso. A retomada do modelo clássico e do rigor formal fez com que a obra sofresse ataques que acusavam Drummond de assumir uma postura neoparnasiana, estética utilizada por alguns autores da Geração de 45. 
No entanto, em Claro enigma não se encontra a superficialidade temática desse grupo. O poeta mineiro, amadurecido, incorporou a tradição literária para produzir uma análise mais densa da condição humana. Coerente com essa feição amadurecida, Drummond organizou os 43 poemas de Claro enigma em seis núcleos temáticos:

1º) “Entre lobo e cão” - Crise existencial de caráter fortemente pessoal. O título indica a visão imprecisa provocada pela pouca iluminação, o que faz com que se confunda um lobo com um cão (constelações), a selvageria com a domesticação. A escuridão é fruto do desencanto e aponta para essa crise existencial.

2º) "Notícias amorosas" - Abordagem típica a respeito do amor, que ele rotulou como “amar-amaro”, entendendo, portanto, o amor como um sentimento marcado por experiências amargas.

3º) "O meninos e os homens" - Drummond (o menino) faz homenagem a outros poetas (os homens).

4º) "Selo de Minas" - Desenvolvimento do tema da terra natal, abordado de forma coerente com o conjunto da obra: uma forma crítica e desencantada.

5º) "Os lábios cerrados" - O poeta aborda o tema da lembrança dos familiares de forma própria, discorrendo sobre a memória e a capacidade que esta tem de tornar presentes os ausentes. Há também a ideia de que os parentes, no decorrer do tempo, conferem uma perenidade dentro da efemeridade, pois transmitem um princípio eterno consanguíneo.

6º)  "A máquina do mundo" - O autor se arremessa com fôlego surpreendente para o mais alto das questões metafísicas. O poema homônimo, pertencente a esta parte, foi considerado o melhor da literatura brasileira. 


No vídeo acima é possível ouvir o poema "A máquina do mundo" e você pode lê-lo no link abaixo:

Assim como na estrutura do poema Drummond retoma o estilo clássico, valendo-se de versos decassílabos, a referência à máquina do mundo também é retirada de um clássico: "Os Lusíadas", de Camões. Abaixo você pode ler o trecho em que Tétis apresenta a Vasco da Gama, herói da obra, a máquina do mundo. 



Segue um artigo do professor João Adolfo Hansen para um aprofundamento de análise. 

A obra Claro Enigma nos apresenta um homem pessimista, entendiado, descrente e desencantado com os rumos do mundo e da sociedade, por isso o caráter profundamente metafísico e reflexivo da obra.

Para saber mais sobre este livro, vale a pena ler o artigo de Viviana Bosi e assistir ao vídeo de Vagner Camilo, ambos do Jornal da USP.



Abaixo seguem mais dois poemas também da obra:

Um boi vê os homens

Tão delicados (mais que um arbusto) e correm

e correm de um para outro lado, sempre esquecidos

de alguma coisa. Certamente, falta-lhes

não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres

e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,

até sinistros. Coitados, dir-se-ia não escutam

nem o canto do ar nem os segredos do feno,

como também parecem não enxergar o que é visível

e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes

e no rasto da tristeza chegam à crueldade.

Toda a expressão deles mora nos olhos — e perde-se

a um simples baixar de cílios, a uma sombra.

Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade,

e como neles há pouca montanha,

e que secura e que reentrâncias e que

impossibilidade de se organizarem em formas calmas,

permanentes e necessárias. Têm, talvez,

certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem

perdoar a agitação incômoda e o translúcido

vazio interior que os torna tão pobres e carecidos

de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme

(que sabemos nós?), sons que se despedaçam e tombam no campo

como pedras aflitas e queimam a erva e a água,

e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.

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Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal,
senão rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e
uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.


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